Bandas filarmónicas a caminho da UNESCO: o que se discutiu no Fórum da Filarmonia

As bandas filarmónicas portuguesas podem vir a ser Património Cultural Imaterial da Humanidade. No Fórum da Filarmonia, promovido pela Confederação Musical Portuguesa (CMP) a 26 de Setembro de 2026 no Real Edifício de Mafra, foi consensual a intenção de avançar com a candidatura à UNESCO — ficando ainda por decidir se Portugal o fará sozinho ou em conjunto com Espanha. A EMEB – Escola de Música de Enxara do Bispo esteve presente, representada pelo secretário da direcção, Nuno Margalha.
O encontro reuniu federações e instituições de todo o país para discutir o reconhecimento das bandas pela UNESCO, os problemas que o movimento filarmónico enfrenta e a cooperação com a congénere espanhola, e contou com a participação do antropólogo Paulo Lima, responsável por várias das candidaturas portuguesas à UNESCO.
Portugal e a UNESCO

A Convenção da UNESCO para o Património Cultural Imaterial reconhece as manifestações em três áreas. Portugal tem hoje onze elementos inscritos:
Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade (8): o Fado (2011), a Dieta Mediterrânica (2013, em candidatura conjunta com outros países mediterrânicos), o Cante Alentejano (2014), a Falcoaria (2016, também candidatura multinacional), o Figurado em barro de Estremoz (2017), o Carnaval de Podence (2019), as Festas do Povo de Campo Maior (2021) e a Arte Equestre em Portugal (2024).
Lista do Património Cultural Imaterial que Necessita de Salvaguarda Urgente (2): a Manufatura de Chocalhos (2015) e o Processo de Confeção da Louça Preta de Bisalhães (2016).
Registo de Boas Práticas de Salvaguarda (1): o projecto luso-galego Ponte… nas Ondas! (2022).
As bandas filarmónicas não constam de nenhuma destas listas, apesar de serem uma das expressões culturais mais disseminadas do país: cerca de 750 bandas, muitas com mais de um século e algumas com mais de duzentos anos. O primeiro passo obrigatório para qualquer candidatura é a inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
O exemplo espanhol

A Confederação Espanhola de Sociedades Musicais (CESM) realizou em Córdoba, a 13 e 14 de Dezembro de 2025, o seu I Congresso Internacional, dedicado às bandas de música amadoras como Património Imaterial da Humanidade. Além de Espanha, participaram representantes do México, da Colômbia, da Argentina e de Portugal, este através do presidente e de outros representantes da CMP. No fórum, a CMP descreveu o congresso como muito enriquecedor e sublinhou a semelhança entre os problemas — e as virtudes — das bandas de todos os países representados.
A única excepção foi o México, cujo representante afirmou não sentir este tipo de dificuldades, nomeadamente no ensino. Quanto a Espanha, a CMP descreveu assim o processo de reconhecimento pela UNESCO: "Está em alta velocidade e não vai parar em nenhuma estação. Vai parar no fim, quando for declarado património imaterial da humanidade."
Manuel Rodrigues, outro participante português no congresso, sublinhou o contraste com a realidade espanhola: o presidente da federação de Valência apresentou o orçamento da sua estrutura e o número de professores com que conta, um nível de organização e de apoio muito distante do português. Para ele, a prioridade é aproveitar essa experiência e trazê-la para Portugal: primeiro criar condições estruturadas e organizadas para satisfazer as necessidades básicas das bandas e, só depois, pensar nos passos seguintes, para que haja cada vez mais música e com mais qualidade. "Sou apenas uma pessoa que tenta ajudar a empurrar o comboio", resumiu.
A CESM agrupa mais de 1.800 bandas, 160.000 músicos e 200.000 alunos, em 1.700 municípios. Só em 2024 as suas bandas deram mais de 20.000 concertos, com um impacto económico estimado em 500 milhões de euros.
Segundo as conclusões apresentadas no fórum, o congresso mostrou um amplo consenso internacional sobre a necessidade de avançar de forma coordenada para o reconhecimento das bandas pela UNESCO. Córdoba foi apresentada não como um ponto de chegada, mas como o ponto de partida de acções conjuntas a nível nacional e internacional.
O que são as bandas filarmónicas
No fórum, a CMP lembrou que as bandas filarmónicas são uma expressão cultural e social central em Portugal. Acompanham festas populares, procissões, romarias, concertos e cerimónias oficiais — dificilmente se imagina uma festa ou procissão sem uma ou duas bandas a abrilhantá-la. Ao longo dos anos, milhares de músicos começaram nelas o seu percurso.
O seu papel vai muito além da música:
Formação: ensino de solfejo, instrumento e história da música
Social: camaradagem, pontualidade, companheirismo, solidariedade — "no fundo, formação de homens e mulheres para a sociedade"
Religioso e tradicional: presença em festas, romarias e celebrações religiosas
Económico: compra, reparação e manutenção de instrumentos, restauração, deslocações
Turístico: divulgação regional e nacional, e a oportunidade de jovens e mais velhos conhecerem novas terras e realidades
Memória: preservação da cultura popular e das tradições locais
A CMP destacou ainda a igualdade de género — homens e mulheres a tocar lado a lado, sem discriminação — e concluiu que, por tudo isto, as bandas filarmónicas portuguesas reúnem todas as condições para se candidatarem ao reconhecimento como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Os desafios das bandas portuguesas
As bandas filarmónicas desempenham em Portugal um papel cultural fundamental, mas enfrentam problemas persistentes, amplamente reconhecidos por músicos, maestros, investigadores e associações do sector. Na intervenção da CMP, Francisco Manuel Relva Pereira destacou os principais:
Dificuldade em reter jovens músicos, sobretudo quando saem para a universidade ou para outras localidades
Falta de financiamento e de sustentabilidade financeira, e infraestruturas inadequadas
Escassez de dirigentes qualificados e gestão interna frágil
Desigualdades nos apoios regionais e necessidade de modernização
Baixa visibilidade e falta de reconhecimento oficial
Dificuldade em articular tradição e contemporaneidade
Falta de organização associativa
A estes somam-se a falta de recursos humanos e financeiros, a desvalorização cultural — as bandas são muitas vezes vistas como "parentes pobres" da cultura —, a dificuldade em atrair público jovem, a escassez de oportunidades de actuação com o desaparecimento das festas tradicionais, e a questão complexa e onerosa dos direitos de autor das partituras.
O reconhecimento como património imaterial não resolve estes problemas por si só, mas obriga à criação de um plano de salvaguarda e dá às bandas um argumento de peso junto do Estado, das autarquias e dos mecenas.
A proposta da CMP
No encerramento da sua intervenção, Francisco Manuel Relva Pereira, presidente do Conselho de Delegados da CMP, foi claro: "Tal como se fez em Espanha, as bandas filarmónicas em Portugal devem ser designadas como património cultural imaterial da humanidade."
As sociedades filarmónicas — expressão usada sobretudo em Portugal — são associações culturais e recreativas sem fins lucrativos, dedicadas à prática musical através de bandas, coros e escolas de música. Funcionam com base na participação voluntária dos seus membros e são agrupamentos artísticos não profissionais, compostos por músicos amadores.
Segundo Relva Pereira, uma designação própria permitiria distinguir esta realidade de outras manifestações já inscritas, como a produção de saké no Japão, a Dieta Mediterrânica, a Falcoaria ou os carnavais europeus, e dar às bandas o reconhecimento que ainda lhes falta junto das entidades governamentais e dos organismos da música, da arte e da cultura.
O fórum contou com o apoio técnico e logístico do Município de Mafra e com o apoio institucional e financeiro da CCDR Lisboa e Vale do Tejo.
A visão de Paulo Lima
"Seríamos miseravelmente pobres se não houvesse bandas." — Paulo Lima
A intervenção mais aguardada do dia foi a de Paulo Lima. Antropólogo, é um dos maiores especialistas portugueses em património cultural imaterial: integrou a comissão executiva da candidatura do Fado, coordenou as candidaturas do Cante Alentejano e da Manufatura de Chocalhos, trabalhou nos dossiês das Festas do Povo de Campo Maior e da Morna de Cabo Verde, e foi director da Casa do Cante, em Serpa. Há cerca de dez anos que defende uma candidatura das bandas filarmónicas portuguesas. No fórum, falou duas vezes, de manhã e à tarde.
Primeiro, perceber o que é o património imaterial
Na manhã, começou por um ponto de método: "É necessário aprofundar o que entendemos como património cultural imaterial, o que entendemos como a Convenção que o suporta e o articulado português." Uma inscrição numa lista mundial, lembrou, exige um conjunto de instrumentos prévios, e deixou um alerta: o que Espanha está a fazer pode não corresponder exactamente a esse processo. Por isso é importante conhecer bem as designações, as inscrições e a forma como a Convenção é traduzida para a realidade de cada Estado Parte.
Ainda assim, deixou clara a sua posição: "As bandas filarmónicas fazem todo o sentido de ser inscritas." Para ele, a inscrição é, "antes de mais, mais uma ferramenta, mais um instrumento" para as bandas procurarem apoios a nível local, regional, nacional e internacional.
No périplo que fez pelo país, encontrou realidades muito diferentes e um factor que, disse, "deve estar escrito": "Existe uma coisa muito importante nas bandas filarmónicas, que é a sua dependência municipal."
Terminou a primeira intervenção a devolver a decisão à sala: "A decisão de avançar ou não com este processo está nas vossas mãos." E acrescentou que, se um dia a inscrição acontecer, será sempre preciso saber responder a uma pergunta: "O que é que vou fazer com isto?"
O património invisível das bandas
À tarde, Paulo Lima voltou ao tema com uma reflexão mais pessoal. Lembrou que as bandas sempre construíram a sua identidade por oposição — a banda de cima e a banda de baixo, a banda velha e a banda nova — e que vivem num lugar singular: "Muitas vezes são demasiado eruditas para os outros lados e demasiado populares para os ditos eruditos. E ficam ali num terreno incerto."
A realidade que encontrou no périplo que fez por várias regiões, de Coimbra ao Alentejo, pouco tem a ver com a que recorda dos seus tempos de miúdo: bandas extraordinárias, músicos muito jovens e, em muitos lugares, uma presença feminina superior à masculina — a ponto de a questão da igualdade de género nem se colocar.
Destacou depois uma realidade que considera "extraordinária" e pouco conhecida: as bandas oferecem formação musical praticamente gratuita em todo o país, numa escola alargada, com professores de instrumento e percursos que levam muitos alunos até ao conservatório. Pelas suas contas, haverá mais de 30 mil praticantes e dezenas de milhares de crianças e jovens a aprender música nas bandas. "Para muitos de nós, a banda é quando vai à rua ou faz um concerto", mas por trás disso há milhares de pessoas.
Apontou ainda três patrimónios muitas vezes esquecidos. O primeiro é a estrutura familiar — pais, filhos, netos e primos na mesma banda —, "a força das bandas", uma das poucas estruturas que resiste há quase dois séculos. O segundo é o património edificado: centenas de sedes, muitas delas verdadeiros teatros e espaços de comunidade, com os seus arquivos. O terceiro é o próprio espaço público, já que, em Portugal, muito dele foi organizado em função da escuta das bandas.
O melhor exemplo são os coretos. Muitos foram destruídos, mas continuam a ser uma forma extraordinária de organizar o espaço público, como o do Jardim da Estrela, em Lisboa. Na Madeira, quando foi preciso construir o aeroporto, em vez de os destruir, transportaram-nos de um lado para o outro — prova da importância que têm.
Muito do que é a festa da aldeia assenta nas bandas, e isso, sublinhou, é "uma coisa incrível, que é invisível". A intenção da candidatura era precisamente criar essa sensibilidade junto do público e das entidades, porque até há pouco tempo havia muito poucos apoios e linhas de financiamento para as bandas. "As bandas fazem um serviço único e não é reconhecido."
Porquê uma candidatura
Para Paulo Lima, uma candidatura tem de responder a duas questões fundamentais. A primeira é mostrar que a prática das bandas não entra em conflito com o enquadramento legal nacional. A segunda é explicar o que ganha o mundo com a inscrição deste património — e aí volta à escuta e à divulgação da música: no século XIX, eram as bandas que levavam aos ouvidos de muita gente música que, de outra forma, nunca teriam escutado.
Mas o mais interessante, sublinhou, é o próprio processo, porque obriga a um plano de salvaguarda — "uma estratégia nacional". "Já não é nem a Confederação, nem a Câmara A, B ou C. É o país que apresenta." Nesse dossiê, o Estado e todas as instituições têm de assumir o que vão fazer no dia seguinte à inscrição para que este património continue. Com todas as dificuldades, lembrou, as bandas "existem há 200 anos, e há 200 anos que conseguem resistir, sobreviver, mudar".
Resumiu assim o grande património das bandas — "não diria material, porque isso leva-nos a outros caminhos": a possibilidade da escuta, a divulgação da música e a formação.
E deixou uma provocação: as bandas "As bandas já são um bem mundial, um bem global, um bem de todos nós".
"Seríamos miseravelmente pobres se não houvesse bandas", pelo que nos dão e pelos jovens músicos e compositores que formam — "e falo de experiência própria".
Ainda assim, reafirmou a posição que tinha há dez anos: "Continua a fazer todo o sentido que se construa um dossiê com um pedido de inscrição." Se será uma candidatura internacional, em série com vários países, com Espanha ou não, está em aberto. Na altura, recordou, chegaram a ser feitos contactos com os PALOP, incluindo várias reuniões com o Governo de Cabo Verde, à semelhança do que Espanha está hoje a fazer com os países da América Latina.
E partilhou uma memória do trabalho na candidatura da Morna. Numa noite em Mindelo, numa praça com um coreto — as ilhas de Cabo Verde, notou, estão cheias deles —, viu chegar seis ou sete homens vestidos de branco, com instrumentos muito antigos, que subiram ao coreto e começaram a tocar, perante uma praça inteira em festa. "Foi talvez o mais próximo que eu podia estar do que era há muitos anos."
O que diz a Convenção
O primeiro passo, defendeu, é aprofundar o que devem ser o dossiê e o plano de salvaguarda, que pode reunir todas as preocupações ouvidas ao longo do dia. E deixou uma garantia a quem receia a uniformização: a Convenção da UNESCO não hierarquiza nem classifica — é um reconhecimento. Deixa nas mãos dos detentores, quem toca e quem dirige, a decisão sobre o que querem fazer com o seu património. Com um toque de humor e simpatia terminou:
"(...) A Unesco pode ainda não ter sido informada em Paris mas as bandas já são património da humanidade."
O debate
No período de debate, um participante defendeu que as bandas já deviam ter sido reconhecidas como património há muito tempo, e retomou uma questão levantada por Manuel Rodrigues: se Espanha já está a avançar com uma candidatura, porque não integrar as bandas portuguesas nesse processo? A pergunta foi dirigida a Paulo Lima e a Manuel Rodrigues.
Outra intervenção retomou a pergunta de Paulo Lima e trouxe uma preocupação partilhada por muitos na sala: "Onde é que isso nos vai levar? Qual é o grande intuito e o grande objetivo?" O receio é que a classificação traga uma "obrigatoriedade de uniformização" das bandas.
Deu como exemplo os apoios municipais: a maioria das bandas mais pequenas depende deles, mas em muitos concelhos são "valores muito, muito, muito pequeninos", tão diferentes entre si que, vistos por outras bandas, parecem não ter "nada a ver com a realidade".
A moderação sublinhou o papel das estruturas federativas e associativas — regionais, distritais e concelhias —, um trabalho que "nem sempre é retribuído", destacou os bons exemplos presentes na sala e deu a palavra aos representantes da Associação de Bandas Filarmónicas do Concelho de Leiria.
Lilia Alves, da direcção da CMP, mostrou-se optimista: "Acho que seria uma excelente ideia conseguirmos efetivamente usufruir deste tipo de reconhecimento." Para ela, mais do que protecção ou financiamento, trata-se de um trabalho de base, e o maior ganho de um eventual título seria "a valorização da comunidade filarmónica", permitindo, através dela, continuar a preservação da cultura.
Lilia Alves partilhou também uma preocupação vivida por dentro. Os jovens que chegam às bandas vêm cada vez mais bem preparados — muitos frequentam o conservatório —, mas falta muitas vezes o compromisso. As faltas anunciam-se no grupo de WhatsApp — "eu hoje não vou, eu amanhã não vou" —, por cansaço ou por um passeio de família, e as bandas acabam a tocar "com meia banda", a recusar convites ou a desmarcar compromissos já assumidos. "Cada um acha que é o único elemento e que não vai fazer diferença nenhuma se faltar", notou.
Por isso, espera que o reconhecimento traga "proteção, visibilidade e orgulho", valorize o voluntariado e o associativismo, e chegue às famílias: que os pais passem a ver a banda como um compromisso importante — "é dia de ensaio, tens um compromisso e é muito importante que não faltes" — e sintam orgulho nos filhos que nela tocam.
O maestro Hernâni Santos, que falou "como maestro, mas também como músico filarmónico", deixou algumas notas soltas. Lembrou que as bandas são tradição mas são também muito jovens, e que isso exige um compromisso real entre as duas coisas. Referiu ainda as imagens que circulam nas redes sociais e que prejudicam a imagem das bandas: "Enquanto dirigente e enquanto maestro, preciso de os ter lá para fazer a música." Mas o que acontece antes e depois da música também conta — o respeito pela farda, o chapéu que não pode cair ao chão, o casaco vestido — e é um caminho que é preciso reforçar.
Sobre o receio de uniformização, foi taxativo: "A uniformidade artística não existe, e ainda bem que não existe. Quanto mais diversificada for a cultura, muito mais rica ela é." Rejeitou a ideia de que todas as bandas tenham de tocar repertório sinfónico de nível 5: "Temos que nos adaptar à nossa realidade, e acho que essa é a verdadeira riqueza." E, falando como maestro: "Tenho que confiar naquilo que eu tenho e transmitir essa confiança a quem está à minha frente. Não os posso descurar, não os posso desrespeitar."
A diversidade, sublinhou, começa dentro do próprio país: "Temos o Norte, o Centro, o Sul, o Interior, os Açores, a Madeira", realidades muito diferentes. "E ainda bem. Não estamos aqui para discutir que uma banda é menor ou que outra é pior."
Comparou ainda com o Fado e o Cante Alentejano: depois da inscrição, passaram a ser interpretados por muitos artistas, até por DJs — o que acha positivo, mas que pode acabar por desvirtuar aquilo que é o património imaterial. As bandas, defendeu, devem manter a sua essência, criando ao mesmo tempo espaço para que todos sejam livres dentro desse contexto. Com estas ressalvas, deixou o seu apoio: uma candidatura "muito louvável", que "deve avançar".
Itelvina Almeida, ligada às bandas do Norte, insistiu que o processo deve começar "mesmo pela base", porque as bandas não estão todas nas mesmas condições para avançar: "Há um grande trabalho a fazer." E apontou um obstáculo pouco falado: "Há muitas barreiras entre as bandas. A maior parte delas não se dão, há muita rivalidade." Enquanto isso existir, deu a entender, será difícil avançar para um projecto comum.
Sobre os apoios, contou que no seu concelho as bandas não dependem inteiramente do município, até porque os apoios são pequenos. Para ela, o primeiro passo é outro: fazer com que as entidades governamentais olhem "com outros olhos" para as bandas filarmónicas. Mesmo entre municípios, o tratamento não é igual, e a política pesa: "Se é da minha cor, eu ajudo; se não é, corta. Isto ainda acontece muito." Assumindo-se "defensora mesmo da filarmonia", apoiou a iniciativa.
Itelvina Almeida alertou ainda para o enfraquecimento das próprias raízes das bandas. "Enquanto não tivermos esta base bem definida, acho que será difícil avançar para este patamar."
Questionou também a designação "agrupamentos artísticos não profissionais" usada na proposta: "Este título tem que se ver muito bem, o que é que se vai incluir", porque também existem bandas filarmónicas profissionais.
Por fim, lembrou que as bandas filarmónicas nascem da sua própria escola. "Antigamente, todas as bandas tinham a sua escola e os músicos nasciam ali." Hoje, muitas bandas já não têm escola e vão buscar músicos directamente aos conservatórios — por vezes músicos que receberam as primeiras bases noutras bandas, que os encaminharam para o conservatório, e que acabam por ser levados por outra banda. "Isto é tudo um trabalho que tem de ser analisado, feito, pesquisado."
Hermenegildo Campos retomou o tema da rivalidade — a velha lógica de "vamos estar contra a banda tal, vamos ver quem ganha" —, que no fundo reflecte também a capacidade e o interesse dos próprios dirigentes em serem cada vez mais capazes.
Sobre as famílias, fez uma comparação: no desporto escolar, os pais assistem aos jogos, por vezes até em excesso; na música, muitos deixam os filhos no ensaio ou na aula e vão embora. Envolver os familiares é, por isso, uma das questões a trabalhar, até porque há casos em que os próprios pais acabam por entrar na banda. "Vamos todos lutar por isso."
Olinda Rio, da CCDR Lisboa e Vale do Tejo, trouxe o olhar de quem gere os apoios públicos. Contou que, quando o programa de apoio às bandas arrancou, houve "muito grande dificuldade" com a própria designação — não era possível chamar "amadores" aos projectos apoiados. E admitiu os limites do programa, que apoia cada banda com um valor fixo de, no máximo, 5 mil euros: "O que, sinceramente, é pouquíssimo."
Falou também a partir da sua experiência europeia: esteve na Comissão Europeia no lançamento do Ano Europeu para o Desenvolvimento, em 2015 — quando Mário Lúcio era ministro da Cultura de Cabo Verde —, acompanhou durante dois anos projectos em Cabo Verde e continua a ser perita externa na avaliação de projectos da Agência Europeia de Educação e Cultura.
Ao longo do dia, notou, só se falou de apoios portugueses, quando existem fundos europeus pouco aproveitados. O Portugal 2030, que vigora até ao fim da década, tem mais de 80 oportunidades de candidatura abertas até ao fim deste ano, em áreas muito diversas, e "pouquíssimos candidatos".
O mesmo aconteceu com o programa de apoio às bandas: no primeiro ano, há três anos, houve pouquíssimas candidaturas; no ano passado já foram mais e, este ano, ainda mais — também porque o regulamento foi sendo adaptado.
Para Olinda Rio, "é preciso mudar o foco". Considerou a candidatura louvável e apontou Espanha como exemplo, com "projetos fantásticos": "Temos que aprender aqui com os nossos vizinhos." A dimensão, lembrou, não tem comparação — nos transportes, na cultura, na economia —, e o país vizinho tem hoje uma solidez que quem não conhece bem a realidade tende a subestimar, pensando que é igual à portuguesa.
A participação da EMEB
A EMEB – Escola de Música de Enxara do Bispo esteve representada no fórum pelo secretário da direcção, Nuno Margalha. Na sua intervenção, a EMEB reuniu os problemas identificados ao longo do dia e apresentou um conjunto de propostas para os resolver.
Os problemas identificados
Dificuldade em reter os jovens músicos, sobretudo quando saem para a universidade ou mudam de terra.
Falta de compromisso de alguns jovens e famílias, com faltas de última hora e actuações "com meia banda".
Falta de financiamento e de sustentabilidade, com infraestruturas inadequadas e poucos recursos humanos.
Dependência dos municípios, com apoios baixos e desiguais entre concelhos e regiões.
Escassez de dirigentes qualificados, gestão interna frágil e pouca organização associativa.
Baixa visibilidade e falta de reconhecimento oficial: as bandas continuam a ser vistas como "parentes pobres" da cultura.
Dificuldade em atrair público jovem e em conciliar tradição e contemporaneidade.
Menos oportunidades de actuação, com o desaparecimento de muitas festas tradicionais.
Custo e complexidade dos direitos de autor das partituras.
Receio de que a classificação traga uma uniformização obrigatória das bandas.
Distância em relação a Espanha em organização, orçamento e número de professores.
As soluções propostas
Bandas auto-sustentáveis, sem profissionalizar todos os músicos. Os músicos continuam amadores e profissionalizam-se apenas as funções estruturais: direcção artística, ensino e gestão.
Um software comum de gestão para todas as bandas, promovido pela CMP, para músicos e presenças, escola de música, sócios e quotas, inventário de instrumentos, fardas e partituras, e agenda.
Uma licença colectiva de partituras, negociada pela CMP com a SPA e as editoras, e uma biblioteca digital partilhada.
Um banco de instrumentos, com empréstimos entre bandas e compras conjuntas.
Formação para dirigentes, gestores e professores das escolas de música.
Por fim, a EMEB sublinhou que a candidatura das bandas filarmónicas a Património Cultural Imaterial é um reconhecimento fundamental para o sector, e que a Confederação Musical Portuguesa deve conseguir levá-la até ao fim.
Um consenso para avançar
No encerramento, a organização sublinhou o resultado do dia: sem oposição de nenhum dos cerca de 45 participantes, vindos de várias partes do país e incluindo todas as bandas do concelho de Mafra, foi consensual a intenção de iniciar ali o processo de reconhecimento das bandas filarmónicas portuguesas como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
A sessão de encerramento contou com o Presidente da Câmara Municipal de Mafra, Hugo Moreira Luís, e com o presidente da CMP, Martinho Caetano. O autarca foi apresentado como "amigo das bandas filarmónicas portuguesas", e o fórum terminou com um concerto da Banda da Sociedade Filarmónica 1.º de Dezembro da Encarnação.

Hugo Moreira Luís saudou Paulo Lima, "o grande motor de todas estas candidaturas", e lembrou o peso da música em Mafra — do Real Edifício, património da UNESCO, ao Museu da Música, ao futuro Arquivo Nacional do Som e às bandas do concelho, algumas com quase dois séculos. Desejou que o local fosse "um talismã" para o processo agora iniciado, sublinhando que a causa "é de Portugal, não é de Mafra", e deixou um compromisso:
"Contem com a Câmara Municipal de Mafra para apoiar todo este processo"
ao lado da CCDR Lisboa e Vale do Tejo e das restantes CCDR. "Temos muito para mostrar. Acima de tudo, para preservar."

O que vem a seguir
De 16 a 18 de Outubro de 2026, a CESM realiza em Albacete o seu I Congresso Nacional, sob o lema "Un país que suena unido". O encontro vai reunir representantes de todas as federações, sociedades musicais, bandas e escolas de música, dirigentes, maestros, músicos, investigadores, instituições públicas e empresas do sector, num momento de partilha, reflexão e inspiração para construir em conjunto o futuro das bandas filarmónicas.
O programa combina diferentes formatos para favorecer a troca de conhecimento e de experiências: palestras de especialistas de âmbito nacional, mesas-redondas sobre os principais desafios do sector, espaços dedicados à sustentabilidade e ao financiamento das sociedades musicais, apresentações sobre novas oportunidades de desenvolvimento, encontros entre representantes institucionais e federações, e uma exposição de empresas, aplicações e serviços para o sector.
Em Portugal, o caminho passa pela inscrição das bandas no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, trabalho que exige documentar a história, os arquivos e a memória viva de cada banda.
Para a Banda da Enxara, que em 2026 celebrou 33 anos da EMEB, este é um caminho em que quer participar. Documentar a história da banda, os seus arquivos e a memória de quem nela tocou é o contributo que cada banda pode dar para o reconhecimento de todo o movimento filarmónico português.






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