Música para começar o ano: os grandes concertos de Ano Novo no mundo e em Portugal
- Nuno Margalha
- há 7 dias
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A transição entre o final de Dezembro e os primeiros dias de Janeiro continua a ser, no calendário cultural internacional, um momento privilegiado para a música clássica. Em várias cidades do mundo, os concertos de Ano Novo assumem a função de rituais colectivos: celebrações sonoras que combinam tradição, festa e a ideia simbólica de recomeço. Embora muitos destes eventos partilhem repertório e espírito festivo, alguns consolidaram-se como referências incontornáveis, com impacto global e continuidade histórica.
Concerto de Ano Novo de Viena
No centro desta constelação está, inevitavelmente, o Concerto de Ano Novo de Viena, realizado a 1 de Janeiro na Sala Dourada do Musikverein pela Filarmónica de Viena. Trata-se do concerto de Ano Novo mais reconhecido internacionalmente, transmitido para dezenas de países e acompanhado por milhões de espectadores. A sua identidade assenta numa repetição ritual rigorosa: o mesmo local, a mesma orquestra e um repertório dominado pela música da família Strauss e dos seus contemporâneos. A edição de 2026, dirigida por Yannick Nézet-Séguin, confirmou essa continuidade ao introduzir ao mesmo tempo sinais de abertura no programa. Excertos e transmissões recentes podem ser vistos no canal oficial associado à transmissão internacional do concerto:
Numa mensagem partilhada após o concerto, Yannick Nézet-Séguin descreveu a experiência como um momento de alegria difícil de exprimir, sublinhando a beleza de ver a música unir pessoas num mesmo gesto colectivo. Falou de uma sensação quase física — entre voar, flutuar e reflectir — e destacou a forte reacção do público, desde os aplausos a Florence Price até aos sorrisos suscitados pela música da dinastia Strauss, encerrando com um agradecimento simples e directo: Feliz Ano Novo.
A tradição de encerrar o Concerto de Ano Novo de Viena com a Marcha Radetzky, composta por Johann Strauss pai em 1848, tornou-se um dos rituais musicais mais reconhecíveis do mundo. Interpretada como último encore, a obra envolve o público de forma activa, que acompanha a música com palmas ritmadas, guiadas pelo maestro, criando um momento de celebração colectiva raro na música sinfónica. Embora não tenha feito parte do programa desde a primeira edição do concerto, a Radetzky afirmou-se, ao longo do século XX, como símbolo de continuidade, optimismo e ligação entre a orquestra e a audiência, encerrando o concerto com uma nota festiva que marca, ano após ano, o início musical do novo ano.
Salute to Vienna
Inspirados neste modelo vienense, surgiram ao longo das últimas décadas concertos de Ano Novo que, sem a mesma estabilidade institucional, conquistaram grande visibilidade. Um dos exemplos mais conhecidos é o Salute to Vienna, uma série de concertos apresentada em várias capitais europeias e norte-americanas, recriando o espírito festivo vienense com orquestras e solistas convidados. Embora não se trate de um único evento fixo, a sua projeção internacional tornou-o uma das referências mais reconhecíveis deste período. Os concertos e excertos oficiais estão reunidos no canal próprio do projecto:
Concertos de Ano Novo associados a André Rieu
Outro fenómeno de grande alcance popular é o conjunto de concertos de Ano Novo associados a André Rieu, apresentados em várias cidades e amplamente difundidos em gravações e transmissões televisivas. Embora estilisticamente mais próximos do espectáculo do que do concerto sinfónico tradicional, estes eventos atingem audiências globais muito significativas e integram repertório clássico festivo associado a esta época do ano. Um exemplo recente pode ser visto aqui:
Staatskapelle Dresden
Num registo mais estritamente sinfónico, a Alemanha mantém tradições de Ano Novo de enorme prestígio artístico. A Staatskapelle Dresden, uma das orquestras mais antigas do mundo, apresenta concertos de Ano Novo que privilegiam densidade musical e rigor interpretativo, afastando-se deliberadamente do modelo ligeiro vienense. Embora menos mediáticos, estes concertos são amplamente respeitados no meio musical. Um excerto representativo pode ser encontrado em:
Gewandhausorchester Leipzig
Também a Gewandhausorchester Leipzig mantém concertos de Ano Novo com forte identidade própria, enraizados na tradição sinfónica germânica. Aqui, o início do ano é assinalado com solenidade e profundidade musical, reforçando a ligação histórica da cidade à música europeia. No canal da orquestra é possível ver alguns dos seus concertos, embora nenhum de Ano Novo:
Em Portugal
Em Portugal, embora não exista um único concerto com projeção internacional comparável à de Viena, a tradição dos concertos de Ano Novo está bem estabelecida e assume crescente relevância cultural.
Orquestra Metropolitana de Lisboa
A Orquestra Metropolitana de Lisboa apresenta regularmente concertos de Ano Novo com repertório festivo, aproximando o público português da tradição centro-europeia. Uma gravação representativa encontra-se disponível no canal oficial da orquestra:
Grande Concerto de Ano Novo – Strauss Festival Orchestra & Ballet
Lisboa acolhe ainda o Grande Concerto de Ano Novo – Strauss Festival Orchestra & Ballet, uma produção de circulação internacional inspirada na tradição vienense, que combina orquestra e dança num formato declaradamente festivo, apresentado em várias capitais europeias como celebração musical da entrada no novo ano.
Concerto de Ano Novo da Orquestra Clássica do Centro
Fora do eixo Lisboa, destacam-se iniciativas como o Concerto de Ano Novo da Orquestra Clássica do Centro, em Coimbra, que conjuga repertório austríaco com peças sinfónicas e operísticas populares, contribuindo para a descentralização desta tradição no panorama nacional. Um registo recente está disponível em:
Concerto de Ano Novo da EMEB – Escola de Música da Enxara do Bispo
Em Enxara dos Cavaleiros (Mafra), a época de Ano Novo também será marcada por música com o Concerto de Ano Novo da EMEB – Escola de Música da Enxara do Bispo, que decorre no Centro Social Miguel Lourenço no dia 3 de Janeiro (amanhã) de 2026 às 21h30. Intitulado “Sons de Hollywood”, o evento apresentou um programa diversificado e envolvente, e reune alunos, professores e músicos da comunidade e proporciona ao público uma experiência festiva e acessível logo após a passagem de ano. A iniciativa integra-se numa série de actividades culturais promovidas pela Escola, que tem vindo a reforçar o papel da música como instrumento de partilha artística e aproximação entre gerações na região local.
Observados em conjunto, estes concertos revelam diferentes formas de assinalar o mesmo momento simbólico. Viena permanece o centro ritual e histórico, mas à sua volta gravitam interpretações diversas — mais solenes, mais festivas ou mais populares — que confirmam a vitalidade desta tradição. Começar o ano com música continua a ser, em muitos contextos culturais, uma forma de afirmar continuidade, memória e expectativa, num gesto que se repete anualmente sem perder significado.





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