Bandas filarmónicas a caminho da UNESCO: a EMEB no Fórum da Filarmonia
Atualizado: 30 de set.
O Real Edifício de Mafra recebeu, a 26 de Setembro de 2026, o Fórum da Filarmonia, promovido pela Confederação Musical Portuguesa (CMP). A EMEB – Escola de Música de Enxara do Bispo esteve presente neste encontro dedicado ao movimento filarmónico e ao caminho para uma candidatura das bandas portuguesas a Património Cultural Imaterial da Humanidade.
O fórum reuniu representantes de federações, associações e instituições de várias regiões do país e contou com a participação do antropólogo Paulo Lima, ligado a diversas candidaturas portuguesas à UNESCO. A organização teve o apoio técnico e logístico do Município de Mafra e o apoio institucional e financeiro da CCDR Lisboa e Vale do Tejo.

Um património vivo nas comunidades
As bandas filarmónicas fazem parte da vida cultural portuguesa. Acompanham festas populares, procissões, romarias, concertos e cerimónias, mantendo uma presença regular em localidades de diferentes dimensões. A sua história cruza-se com a história das comunidades: com as celebrações, os espaços públicos, as associações e as pessoas que, ao longo de várias gerações, lhes deram continuidade.
Muitas destas instituições têm mais de um século de existência e algumas ultrapassam os duzentos anos. Essa longevidade resulta de um trabalho colectivo que se renova. Cada geração recebe instrumentos, partituras, conhecimentos e responsabilidades, mas também acrescenta novos músicos, novas formas de ensinar e novas escolhas artísticas. É nesta relação entre continuidade e mudança que se mantém a vitalidade do movimento filarmónico.
A actividade das bandas tem uma dimensão que vai além dos momentos de actuação. Há ensaios, aulas, preparação de repertório, manutenção de instrumentos e organização associativa. Há igualmente o trabalho necessário para cuidar de instalações, preservar arquivos e assegurar a participação em actividades. O concerto é a parte mais visível de uma vida colectiva que decorre durante todo o ano.
O valor deste património está, por isso, tanto na música como nas relações que a tornam possível. A convivência entre idades e percursos diferentes, a aprendizagem em conjunto e a ligação à localidade dão às bandas um lugar próprio no tecido cultural e social português. A sua presença aproxima a prática musical de públicos que nem sempre têm acesso regular a outros espaços de criação e de escuta.
Escolas de música e transmissão entre gerações
As escolas ligadas às bandas são uma das bases desta continuidade. Para muitas crianças e jovens, representam o primeiro contacto com a aprendizagem de um instrumento e com a música de conjunto. O ensino da leitura musical, o acompanhamento dos professores e a participação progressiva nas actividades criam um percurso que liga a formação à experiência de tocar com outros.
Destas escolas saem músicos que seguem caminhos diferentes. Alguns prosseguem estudos em conservatórios e no ensino superior; outros mantêm a música como parte da sua vida, em paralelo com outras profissões. Em ambos os casos, a aprendizagem contribui para alargar a participação cultural e para manter uma relação duradoura com a prática musical.
A transmissão não acontece apenas nas aulas. O contacto entre músicos mais novos e mais experientes permite partilhar conhecimentos, hábitos de trabalho e memória institucional. Quem chega aprende também a integrar um grupo, a preparar uma actuação e a assumir responsabilidades num projecto comum. Esta convivência ajuda a dar continuidade a instituições cuja actividade depende de sucessivas gerações.
A formação musical tem, assim, uma dimensão artística e uma dimensão associativa. Aprender, ensaiar e actuar são partes de um mesmo percurso, sustentado pelo trabalho de professores, músicos e dirigentes. Cuidar deste percurso é cuidar de uma das principais formas de renovação das bandas e da sua ligação às comunidades.
A memória para além do palco
O património filarmónico inclui também os lugares e os documentos que acompanham a prática musical. Sedes, salas de ensaio, teatros e coretos fazem parte desta história. São espaços de aprendizagem, de encontro e de apresentação pública, muitas vezes ligados à vida quotidiana das localidades e à forma como nelas se organiza a actividade cultural.
Partituras, fotografias, programas, actas e outros registos permitem conhecer a evolução de cada instituição. Através deles é possível acompanhar repertórios, mudanças de formação, deslocações e relações com outras entidades. A preservação destes materiais dá continuidade à memória colectiva e torna-a acessível a quem chega depois.
A documentação escrita e visual completa-se com a memória de quem participou. Músicos, professores, dirigentes e familiares guardam experiências que nem sempre ficaram registadas. Reunir essa memória ajuda a compreender o papel que uma banda teve na comunidade e a reconhecer o contributo de pessoas cujo trabalho, muitas vezes discreto, sustentou a sua actividade.
Preservar este património é conhecer o percurso de cada instituição e dar-lhe condições para continuar a criar e a fazer música. A história, os arquivos e a prática actual pertencem ao mesmo processo de transmissão, no qual a memória acompanha a renovação.
O enquadramento da UNESCO
O Património Cultural Imaterial está ligado a práticas, conhecimentos e formas de expressão que as comunidades reconhecem como parte da sua herança cultural. A sua continuidade depende da transmissão e da participação das pessoas que o mantêm vivo. No caso das bandas filarmónicas, essa dimensão está presente na aprendizagem musical, na actividade colectiva e na ligação entre gerações.
Portugal tem diferentes manifestações reconhecidas no âmbito da Convenção da UNESCO, entre as quais o Fado, o Cante Alentejano e a Manufatura de Chocalhos. Estes exemplos ajudam a situar o enquadramento geral do património imaterial. A preparação de uma candidatura das bandas exige, contudo, um trabalho próprio de identificação, documentação e definição de medidas de salvaguarda.
No percurso português, o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial é uma referência essencial. Conhecer as práticas, reunir documentação e envolver as comunidades são tarefas que antecedem e sustentam um processo de reconhecimento. Trata-se de um trabalho continuado, que depende da colaboração entre instituições e do conhecimento da realidade de cada território.
Um plano de salvaguarda deve estar ligado à continuidade da prática cultural. A formação de novos músicos, a transmissão de conhecimentos, a preservação da memória e as condições para manter a actividade são dimensões relevantes desse trabalho. O reconhecimento internacional pode dar visibilidade ao património, mas a sua vitalidade continua a depender da actividade das comunidades.
Paulo Lima é antropólogo e tem trabalho desenvolvido em processos de candidatura e salvaguarda. O seu percurso inclui ligação ao Fado, ao Cante Alentejano e à Manufatura de Chocalhos, entre outras manifestações culturais.
Continuidade e sustentabilidade
Manter uma banda em actividade implica assegurar condições artísticas, pedagógicas e materiais. O ensino, a direcção musical, a gestão associativa e a organização de concertos fazem parte de um conjunto de tarefas interligadas. A continuidade depende tanto da participação dos músicos como do trabalho que permite preparar e acompanhar essa participação.
Os instrumentos precisam de manutenção, os espaços precisam de condições adequadas e a actividade regular tem custos. A preparação de repertório, as deslocações e o funcionamento das escolas de música exigem recursos e capacidade de organização. Esta dimensão quotidiana é inseparável da preservação do património: para que a música continue, é necessário sustentar as condições em que se aprende, ensaia e actua.
O voluntariado e o associativismo têm um papel central neste contexto. Muitas instituições assentam no contributo de pessoas que dedicam tempo à música e à comunidade, conciliando esse trabalho com outras responsabilidades. A formação de dirigentes e o reforço das competências de gestão podem contribuir para a continuidade das associações e para uma melhor organização da sua actividade.
As autarquias, as estruturas federativas e outras entidades culturais integram igualmente este contexto de apoio. As realidades variam entre localidades e regiões, pelo que o conhecimento de cada instituição é importante. Uma perspectiva de salvaguarda deve ter em conta essa diversidade e a relação entre a actividade musical, os recursos disponíveis e a comunidade em que se desenvolve.
Uma dimensão de cooperação
O movimento filarmónico português integra uma realidade mais ampla, com ligações a países onde as bandas e as sociedades musicais têm também uma forte presença cultural. A proximidade com Espanha dá particular relevância à relação entre a CMP e a Confederação Espanhola de Sociedades Musicais (CESM).
A CESM realizou em Córdoba, em Dezembro de 2025, um congresso internacional dedicado às bandas de música amadoras e ao património imaterial, com participação portuguesa. O seu calendário inclui também um congresso nacional em Albacete, de 16 a 18 de Outubro de 2026. Estes encontros fazem parte de um contexto de cooperação e de contacto entre instituições do sector.
A colaboração entre associações, federações e entidades culturais permite conhecer diferentes modelos de organização e de formação musical. Pode também apoiar o trabalho de documentação e de valorização do património. Esse contacto deve acompanhar o conhecimento das realidades locais, que dão identidade às bandas e às comunidades a que pertencem.
A presença da EMEB
A EMEB esteve representada no Fórum da Filarmonia pelo secretário da direcção. A participação insere-se na sua ligação ao ensino da música e à vida associativa, bem como no acompanhamento de iniciativas dedicadas ao futuro do movimento filarmónico português.
Em 2026, a escola celebrou 33 anos de actividade. Esse percurso faz parte da história musical da comunidade e da continuidade de um projecto de formação que atravessa gerações. O trabalho regular de alunos, professores e responsáveis mantém a aprendizagem musical próxima da prática colectiva e da participação cultural.
A presença em encontros nacionais aproxima a escola de outras instituições com percursos e responsabilidades semelhantes. Para uma escola de música ligada ao movimento filarmónico, a formação, a memória e a continuidade associativa são dimensões de um mesmo trabalho. A participação no fórum integra esse contexto institucional.
Mafra e o encerramento do encontro
A realização do fórum no Real Edifício de Mafra associou o encontro a um espaço com uma forte ligação ao património e à música. O apoio do Município de Mafra e da CCDR Lisboa e Vale do Tejo enquadrou a organização desta iniciativa nacional.
A sessão de encerramento contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Mafra, Hugo Moreira Luís, e do presidente da CMP. O programa terminou com um concerto da Banda da Sociedade Filarmónica 1.º de Dezembro da Encarnação, no Real Edifício de Mafra.

O momento musical deu lugar à prática que está na origem de todo este património: músicos a tocar em conjunto, perante o público, num espaço de encontro. A actividade artística e a vida associativa mantêm-se no centro do caminho para a valorização das bandas filarmónicas.
Um caminho de preservação
A preparação de uma candidatura é um processo que exige continuidade, documentação e participação. Reunir a história das instituições, conhecer os seus arquivos e preservar a memória de quem nelas aprendeu e tocou são contributos para um conhecimento mais completo do movimento filarmónico.
Esse trabalho tem valor para as próprias comunidades, independentemente do calendário de um reconhecimento internacional. Permite tornar visível um património construído ao longo de gerações e criar melhores condições para a sua transmissão. A memória das bandas ganha sentido quando permanece ligada à música que continuam a ensinar e a fazer.
É neste horizonte que se situa a presença da EMEB no Fórum da Filarmonia: na ligação entre formação, prática musical e património, e na continuidade de um trabalho que se realiza todos os dias nas escolas, nas salas de ensaio e nos palcos.






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